Desistência na Venda para Entrega Futura: O Fim das "Notas Fictícias" e a Posição da SEFAZ-SP
Resposta à Consulta Tributária nº 33.958/2026 esclarece que empresas não devem emitir notas de devolução nem buscar cancelamentos extemporâneos quando a mercadoria não circulou. Entenda o impacto na rotina fiscal e como o Simples Nacional pode recuperar tributos.

O Fim das Movimentações Fictícias
O ambiente tributário brasileiro é cercado de práticas que, embora comuns, carecem de segurança jurídica. Uma das dúvidas mais frequentes no comércio atinge em cheio as operações de "venda para entrega futura". O que fazer quando a Nota Fiscal já foi emitida, os prazos se esgotaram, mas o cliente desiste do negócio antes do produto sair do estoque?
Para resolver o impasse de uma vez por todas, a Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo (SEFAZ-SP) emitiu a Resposta à Consulta Tributária nº 33.958/2026. O documento traz uma orientação clara, direta e que exige uma mudança imediata na forma como muitas empresas conduzem seus cancelamentos, sob pena de severas autuações.
O Caso Concreto: O Erro da Devolução Inexistente
Na situação que gerou o pronunciamento da SEFAZ, uma empresa comercializou materiais com entrega programada. Foi emitida a Nota Fiscal Eletrônica (NF-e) de simples faturamento (CFOP 5.922). Meses se passaram e o comprador desistiu da aquisição.
O dilema da empresa era o clássico: como o prazo legal para cancelar a nota (24 horas) havia expirado há muito tempo, seria necessário abrir um processo administrativo de cancelamento extemporâneo? Ou bastaria emitir uma Nota Fiscal de Entrada para "devolver" os produtos ao estoque e anular a operação?
A resposta do fisco paulista foi contundente: Nenhum dos dois.
Conexão com a Realidade Empresarial
Muitos setores, como construção civil, agronegócio e maquinário pesado, operam com grandes volumes em entrega futura. A prática de emitir "notas de entrada" para anular um faturamento quando o negócio dá errado é disseminada. No entanto, o fisco enxerga isso como uma irregularidade grave.
A lógica da SEFAZ-SP é irrefutável: a NF-e de simples faturamento possui caráter estritamente comercial. Ela serve para documentar um contrato e possibilitar o pagamento, mas não atesta a movimentação física da mercadoria.
Para o Direito Tributário estadual, o ICMS só ocorre com a saída física do produto. Se a mercadoria nunca deixou o seu estabelecimento, o imposto não ocorreu. Consequentemente, é impossível "devolver" o que nunca saiu. Emitir uma nota de devolução nessas condições caracteriza a criação de uma movimentação fictícia de estoque.
O Que Muda na Prática?
A partir dessa orientação, o departamento fiscal das empresas deve adotar os seguintes padrões:
- Fim da Burocracia de Cancelamento: Não é necessário instaurar processos demorados de cancelamento extemporâneo da nota original (CFOP 5.922). A nota permanece válida como um registro histórico de uma intenção de negócio que, posteriormente, foi desfeita.
- Anotação Correta: O cancelamento comercial do negócio deve ser formalizado no Livro Registro de Utilização de Documentos Fiscais e Termos de Ocorrências (Modelo 6). É lá que você informa ao fisco o que realmente aconteceu com aquela operação.
- Guarda de Provas: A segurança da operação reside na documentação. A empresa deve guardar o distrato do contrato, os e-mails comprovando a desistência e, crucialmente, os comprovantes de estorno ou devolução dos valores financeiros pagos pelo cliente.
O Alerta para o Simples Nacional: Recuperação de Caixa
A RC 33.958/2026 traz um ponto de altíssima relevância para as empresas optantes pelo Simples Nacional. Pela regra do regime, a receita decorrente da venda para entrega futura deve ser tributada no momento do faturamento (emissão da nota 5.922).
Se o negócio foi desfeito meses depois, significa que a empresa pagou imposto indevidamente sobre uma receita que não se concretizou. O desfazimento devidamente registrado, como orienta a SEFAZ, é o pilar que garante o direito líquido e certo de solicitar a restituição administrativa desses valores.
O Impacto da Falta de Assessoria
Ignorar essas diretrizes significa manter um passivo oculto. Emitir notas de entrada fictícias desregula todo o controle de estoque no SPED (Bloco K), gerando inconsistências que disparam alertas automáticos na malha fina da Receita. Uma simples "correção" equivocada pode resultar em multas pesadas por emissão de documento fiscal que não corresponde à efetiva circulação de bens.
Além disso, empresas sem acompanhamento especializado perdem dinheiro ao não buscarem ativamente a restituição do imposto pago a maior em negócios cancelados.
Não arrisque a saúde financeira e a conformidade da sua empresa com procedimentos fiscais amadores.
A adequação a estas regras exige técnica e conhecimento da legislação tributária. Se a sua empresa realiza vendas para entrega futura, é vital auditar seus procedimentos de cancelamento.
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